Porque Organogramas Tradicionais não Suportam a Transformação Digital de Grandes Empresas?

Como fã assumido da trilogia “De Volta para o Futuro”, não consigo deixar de pensar em entrar no DeLorean do Professor Brown e viajar até os tempos da Idade da Pedra para ver se, de fato, as sociedades se organizavam em pequenos grupos nômades ou semi-nômades de caçadores-coletores.

Mas, saindo da ficção e voltando à realidade, temos que nos basear na história e usar os aprendizados da ciência para evoluirmos por meio das lições aprendidas pela humanidade.

Vamos remontar o que sabemos dessas sociedades que se caracterizavam por:

  • Estruturas Sociais Simples: A organização social era baseada em laços familiares e de parentesco, com pouca hierarquia formal.
  • Economia de Subsistência: A sobrevivência dependia da caça, pesca, coleta de plantas e, mais tarde, da agricultura primitiva.
  • Divisão de Trabalho: Havia uma divisão de trabalho baseada em gênero e idade, com homens geralmente envolvidos na caça e mulheres na coleta e cuidados com a prole.
  • Habitação e Mobilidade: As moradias eram temporárias ou sazonais, adaptadas ao estilo de vida nômade e às migrações em busca de recursos.
  • Ferramentas e Tecnologia: O uso de ferramentas de pedra era central para a vida cotidiana, com inovações tecnológicas ocorrendo lentamente ao longo do tempo.

Essas características variavam dependendo da região e do período específico dentro da Idade da Pedra (Paleolítico, Mesolítico, Neolítico).

Na perspectiva da antropologia, os times se organizam com base em estruturas sociais e práticas culturais que são influenciadas por fatores como:

  • Hierarquia e Poder: A distribuição de poder e a hierarquia dentro de um time podem afetar como as decisões são tomadas e como os membros interagem entre si.
  • Normas e Valores: Normas sociais e valores compartilhados ajudam a definir o comportamento aceitável dentro do time e a maneira como os membros colaboram.
  • Comunicação e Linguagem: A linguagem e os métodos de comunicação são fundamentais para a coordenação das atividades do time e para a manutenção da coesão social.
  • Rituais e Cerimônias: Rituais, como reuniões regulares ou celebrações de sucesso, podem fortalecer a identidade do time e promover um senso de pertencimento.

Esses elementos são moldados pelo contexto cultural mais amplo no qual o time está inserido e podem variar significativamente entre diferentes organizações ou sociedades.

Mesmo sem um DeLorean, podemos afirmar que comportamentos como colaboração, auto-organização, comprometimento e senso de responsabilidade sempre estiveram presentes na formação de grupos ao longo da existência humana.

Se podemos afirmar isso, vem a pergunta óbvia: o que fizemos no longo dessa existência para perder comportamentos tão valiosos?

Modelo Spotify

A adoção de práticas de ágil escalado como ferramenta para promoção da Transformação Ágil nas organizações, visando à Transformação Digital, tem se tornado tema de discussões cada vez mais intensas nos fóruns de agilidade.

Desde a introdução do Modelo Spotify para organização de times ágeis, começamos a questionar qual seria a melhor composição de times para escalar o ágil de forma eficaz nas organizações.

Para aqueles que ainda não estão familiarizados com o termo Modelo Spotify, ele foi desenvolvido como uma maneira de escalar o ágil dentro do Spotify, com o intuito de gerir múltiplos times que operam em sinergia. Este modelo é reconhecido por sua estrutura de Tribos, Guildas, Capítulos e Squads, que fomenta autonomia e uma cultura ágil contínua. O modelo é constantemente evolutivo e se adapta às necessidades da organização.

Como tudo que funciona para alguém acaba virando uma receita de bolo, muitas empresas começaram a adotar o Modelo Spotify exatamente como foi implementado em sua organização de origem. Isso, claro, gerou benefícios, mas também promoveu a reflexão de que algo constituído para um cenário específico não pode se encaixar perfeitamente em qualquer realidade empresarial.

Não demorou para que percebêssemos estar diante de uma nova vertente da agilidade. A garantia de Fluxo, Cadência e Valor dentro de grandes empresas de forma síncrona remete à necessidade de revisão da distribuição dos times e da maneira como eles operam e se comunicam.

Topologia de Times

Duas pessoas que perceberam isso logo no início foram os autores Matthew Skelton e Manuel Pais, que, em sua obra “Team Topologies”, revelaram a essência por trás do Modelo Spotify.

O conceito de Topologia de Times é, de longe, a melhor definição para a proposta de estruturação de times ágeis em grandes organizações. E para corroborar com minha afirmação, precisamos entender melhor a etimologia de “Topologia” neste cenário.

O termo “Topologia” se tornou muito popular na área de redes de computadores no final dos anos 80 e início dos anos 90. O conceito aplicado aqui se referia aos diversos tipos de conexão de rede entre computadores e também à conexão entre essas diversas redes. Essa forma de enxergar a topologia faz todo sentido para a composição dos times ágeis, pois temos diversos tipos de times que, por sua vez, se conectam na geração de valor pelo time e também na composição do valor empresarial, conectando-se com os demais times.

Embora o termo tenha se popularizado na computação, a origem do termo “topologia” vem da matemática e aplica-se à geometria para o estudo dos tipos e propriedades de superfícies ou espaços por meio da análise de suas deformações, torções e alongamentos de objetos. Em outras palavras, a Topologia nos permite calcular e estruturar uma Topografia, que, por sua vez, descreve as características naturais ou artificiais presentes na superfície de uma localidade.

Esse conceito também é aplicável ao que consideramos Topologia no contexto de times ágeis. A Topologia, enquanto ciência matemática, nos permite entender e otimizar a Topografia, ou seja, aquilo que está acima do solo. A dinâmica da superfície é o que nos permite conectar e organizar em torno do que é vital para o ser humano, mas o que se encontra no subsolo não é menos importante, pois os nutrientes e a composição tectônica são a infraestrutura fundamental para que possamos habitar a superfície. Da mesma forma, a Topologia de times apresenta uma superfície nítida e organizada por meio das unidades ágeis e sua dinâmica de execução de valor, mas nem por isso o organograma da empresa é menos importante. Em um cenário de ágil escalado, as unidades ágeis são visíveis à superfície, enquanto os organogramas estão mais no subsolo, gerando a infraestrutura necessária para manter a organização sólida e compatível com as requisições legais e institucionais.

Organogramas vs. Topologias

E agora, vamos ao objetivo deste artigo. Quando me refiro a Organogramas Tradicionais, estou falando das estruturas hierárquicas e dos silos empresariais, onde cada unidade estratégica da organização funciona como uma empresa isolada, sem percepção de valor coletivo para a estratégia organizacional e os clientes que são, de fato, o cerne dos objetivos empresariais.

Os diversos requisitos legais, regulatórios e institucionais dificultam a transformação dessas estruturas em fluxos de valor contínuos e cadenciados. Por isso, a Topologia de Times surge como uma forma viável de horizontalização do fluxo de valor, permitindo estabelecer um ciclo virtuoso de geração de valor nos diversos níveis da estrutura organizacional.

E agora você deve estar se perguntando: Como posso aplicar a Topologia de Times na minha organização?

Bom, como eu disse anteriormente, esse negócio de receita de bolo é meio complicado. Mas nada impede de tentarmos, certo? Vou colocar aqui alguns passos que julgo serem importantes nesse processo:

  1. Entenda os Princípios: Familiarize-se com os conceitos fundamentais de Topologia de Times, como tipos de times, interações e padrões de comunicação.
  2. Avalie a Estrutura Atual: Analise a estrutura organizacional atual para identificar silos e hierarquias que possam ser obstáculos à agilidade.
  3. Defina os Tipos de Times: Estabeleça quais tipos de times (por exemplo, times de desenvolvimento, times de plataforma, times de produto) são necessários para sua organização.
  4. Promova a Colaboração: Crie mecanismos para promover a colaboração entre os times, como comunidades de prática ou guildas.
  5. Implemente Fluxos de Valor: Organize os times em torno dos fluxos de valor para garantir que o trabalho esteja alinhado com as necessidades dos clientes.
  6. Adapte e Evolua: Esteja preparado para adaptar a topologia dos times conforme a organização cresce e as necessidades mudam.

Lembre-se, cada organização é única, então adapte as práticas da Topologia de Times para atender às suas necessidades específicas.

Arquitetura Empresarial 4.0

Como agora tudo é 4.0, vamos aproveitar essa tendência para discutir a importância da modernização da Arquitetura Empresarial, a fim de suportar esses novos paradigmas de modelagem organizacional.

Não é uma tarefa simples estruturar uma Topologia paralelamente a um Organograma, principalmente pelo fato de que essas duas estruturas têm que se comunicar sinergicamente para que, de fato, se tenha algum ganho com a adoção da agilidade organizacional.

Não é à toa que o SAFe coloca o Arquiteto Empresarial ao lado do Epic Owner na camada estratégica do modelo. Sem uma arquitetura empresarial robusta, não podemos criar as condições favoráveis à implementação da Agilidade Organizacional.

São muitos os desafios nesse tipo de implementação e, com certeza, variam de empresa para empresa; contudo, podemos elencar aqueles comuns à maioria dos casos:

  • Resistência à Mudança: Superar a resistência cultural e a inércia organizacional pode ser difícil.
  • Comunicação: Estabelecer uma comunicação eficaz entre times interdisciplinares e garantir alinhamento.
  • Autonomia vs. Alinhamento: Encontrar o equilíbrio entre dar autonomia aos times e manter o alinhamento com os objetivos da organização.
  • Estrutura de Liderança: Adaptar as estruturas de liderança para apoiar a tomada de decisão descentralizada.
  • Treinamento e Competências: Desenvolver as competências necessárias nos membros dos times para trabalhar em um ambiente ágil.
  • Medição de Desempenho: Criar sistemas de medição que incentivem a colaboração e não apenas o desempenho individual.

Cada um desses desafios requer uma abordagem cuidadosa e a consideração das características únicas da organização, mas a modernização da Arquitetura Empresarial, além de ser um diferencial para as grandes empresas, também traz benefícios concretos para a eficiência e eficácia dos processos. Podemos listar os seguintes benefícios:

  1. Agilidade: Maior capacidade de resposta às mudanças do mercado e às necessidades dos clientes.
  2. Eficiência Operacional: Otimização de processos, redução de redundâncias e melhoria na gestão de recursos.
  3. Inovação: Facilitação da inovação ao permitir a integração de novas tecnologias e práticas.
  4. Alinhamento Estratégico: Melhor alinhamento entre TI e objetivos de negócios, garantindo que os investimentos em TI gerem valor.
  5. Gerenciamento de Riscos: Melhoria na previsão e gerenciamento de riscos através de uma visão holística da organização.
  6. Conformidade: Facilitação do cumprimento de regulamentações e padrões do setor através de uma normatização interna lean e de processos simplificados de compliance.

A modernização permite que a organização seja mais adaptável, competitiva e preparada para o futuro.

Este é um tema interessante e extenso, por isso reservarei mais elementos para um próximo artigo. Não sei bem de quem é essa frase, mas acho pertinente para o tema: “Se quer ir rápido, vá sozinho. Se quer ir longe, vá em grupo”.

Vou ficando por aqui.

Um grande abraço!

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