Já faz algum tempo que a temática da transformação digital passou a fazer parte das discussões das organizações e da sociedade.
Entre os anos de 2016 a 2019, esse assunto tomou corpo e povoou as estratégias e direcionamentos de vários segmentos da sociedade. Preocupações diversas, como o papel da mão de obra humana e os limites éticos do uso massificado das novas tecnologias habilitadoras do futuro digital, foram alvo de estudos e pesquisas.
Vários conceitos e práticas emergiram, buscando trazer maior efetividade aos processos e delimitação do que seria trabalho de humanos e o que seria função das máquinas (Indústria 4.0).
Alguns olharam para tudo isso com extremo ceticismo e outros mergulharam de cabeça, sem nenhuma objeção aos possíveis cenários. Hoje me pergunto se um algoritmo de IA como Watson teria mais credibilidade do que Terry Crews (Julius – Todo Mundo Odeia o Cris) na promoção do engajamento das pessoas quanto às recomendações da OMS (Organização Mundial da Saúde). Pois é, a boa e velha empatia ainda é um ativo genuinamente humano!
A guerra contra esse vírus está trazendo ensinamentos importantes para o futuro da humanidade. A tecnologia é um recurso precioso e deve ser usada com muita responsabilidade e consciência.
Durante o frisson da transformação digital, muitos especialistas surgiram, quase todos anunciando suas profecias futurísticas, obtidas em curto espaço de tempo, através de estudos direcionados e tendenciosos, onde vendiam a terra das maravilhas, desde que adotássemos as tecnologias corretas e as pessoas desenvolvessem as tais habilidades digitais.
O fato é que muitos se denominaram futuristas e pregaram a boa nova de um futuro promissor e livre de sofrimento. E aí temos nossa primeira lição: prever o futuro ainda é algo impossível com as ferramentas que dispomos. Por isso que os profissionais sérios deste segmento passaram a adotar o termo “foresight” (prospectiva) como o mais adequado àqueles que se propõem a trabalhar com dados e fatos para prospectar cenários futuros possíveis.
Outra questão a ser observada nos diversos relatórios futuristas que foram veiculados durante o boom da TD (transformação digital) é que o cenário de risco foi desconsiderado das tendências apresentadas. Se observarmos o período em que esses relatórios foram produzidos, podemos ver que passamos por questões virais críticas, como gripe aviária (H5N1), gripe suína (H1N1) e SARS/MERS.
Chegamos então à segunda lição: riscos fazem parte do levantamento dos cenários prospectivos. Logo, se trabalhamos com dados e fatos, os riscos são determinantes para predizer se algo pode, ou não, acontecer.
Notem que a pandemia que estamos vivenciando está potencializando o crescimento de alguns segmentos emergentes do mercado de TD e outros, pelo mesmo fator, estão caindo no esquecimento. A computação em nuvem foi decisiva para viabilizar o trabalho remoto em tão curto espaço de tempo, assim como as práticas de trabalho colaborativo oriundas dos métodos ágeis.
Por outro lado, chatbot, computação cognitiva e IA já não têm o mesmo glamour, e isso no decorrer de poucas semanas.
Com o contato físico extremamente limitado, provavelmente novas modalidades de entrega, como as feitas por drones e o uso de aplicativos e plataformas para compras, serão, nos próximos meses, as tecnologias que mais irão avançar. Meios de pagamento, serviços bancários e atendimento social deverão crescer bastante no ranking dos aplicativos mais cobiçados.
Então, vamos à nossa terceira e última lição: os fatores ambientais e seu grau de exposição aos riscos são determinantes para a construção de um cenário prospectivo. Para efetivamente utilizar o foresight como ferramenta de estratégia e tomada de decisão é importante ter vários cenários possíveis, com diversas perspectivas de exposição aos riscos.
O curso da transformação digital global será transformado e acelerado, em muitos casos, em função da pandemia do coronavírus; provavelmente a medicina vai focar muito mais na manutenção da vida, de agora em diante, do que na longevidade como todos previam.
Então, vamos fazer uma reflexão profunda nesses dias de quarentena e, doravante, buscar um ponto de vista mais realista na hora de prospectar tendências. Em um mundo onde a maior arma de manipulação são as fake news, sejamos coerentes e críticos com as informações que nos chegam e saibamos separar marketing tendencioso de prospecção preditiva.
E lembrem-se de fazer a sua parte: lave bem as mãos e fique em casa!